UMA VALSA SERTANEJA EM APARECIDA

 

    Após a Missa no Santuário de Aparecida, fomos todos percorrer a feira, como é típico nas romarias. Ia com meus primos e outros parentes, quando nos demos conta que o tio Sebastião e sua esposa, tia Maria, não estavam conosco. Todos voltamos, preocupados, à procura do casal. De repente, um dos netos gritou para nós: “eles estão aqui, venham ver!”.

    O casal estava numa barraca de CDs, dançando juntos ao som de uma música que era ali tocada. Esquecidos do mundo, dançavam uma valsa sertaneja, mas a melodia que os embalava era canção do Criador que fez homem e mulher à sua imagem e semelhança. Há mais de quarenta anos casados, eram duas liberdades que andaram juntas situações felizes, dolorosas, crises! E aquela valsa parecia dizer: vencemos todas as situações e hoje dançamos a música da nossa vida no quintal da Casa de Nossa Senhora!

    O olhar de todos brilhava diante de uma cena sagrada, a qual ninguém teve coragem de interromper: um rosto colado no outro rosto com tanta ternura, um abraço que juntava duas vidas com um amor inquebrantável. Era o “tio Tião e a tia Maria”, porém havia muito mais. Era  o homem que deixou pai e mãe para se unir à sua mulher. União tão sagrada que a Bíblia usa o mesmo verbo para significar a união da alma humana a Deus “A ti está ligada a minha alma” (Sl 63/62,9). Era a vitória sobre a solidão, agora incapaz de perturbar o coração povoado pela presença do outro.

    A valsa terminou no estalar de um beijo e das palmas de filhos, consortes e netos. De repente, olhava ao redor e via tantas existências que brotaram do amor daquele casal. No dizer do Papa Francisco, “o fruto desta união é ‘tornar-se uma só carne’, quer no abraço físico, quer na união dos corações e das vidas e, porventura, no filho que nascerá dos dois e, em si mesmo, há de levar as ‘duas carnes’, unindo-as genética e espiritualmente”.

    Anos mais tarde, tendo os dois já falecido, criei o gosto de observar os ícones. Olho o ícone da Santíssima Trindade, os três anjos ao redor da mesa que falam de Deus. Olho o casamento do tio Tião e da tia Maria, um casal que me fala da Santíssima Trindade. 

Por: Pe. Josimar C. Lourenço    

 Nota: A crônica toma referências da exortação do Papa Francisco “A Alegria do Amor na Família", números 9 a 13, disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

Imagem: cathopic.com

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