Entrevista - NATAL
A entrevista desta semana terá como tema o Natal, o nascimento do Menino Jesus, e dar-se-á com o nosso estimado Cônego Sérgio Roberto Monteiro, da Igreja Católica, Diocese da Campanha/MG.
Sérgio, filho de sr. José Maria Monteiro e de dona Maria Aparecida Marciano Monteiro, nascido em Itamonte/MG, no dia 11 de fevereiro de 1974, está em Itanhandu desde 15 de maio de 2016 e tornou-se Cônego em 13/06/2018.
1) A sociedade atual, cada vez mais hedonista, consumista e materialista, vive o Natal como uma data pagã, priorizando o consumo e uma filantropia que causa um reducionismo da verdadeira caridade cristã. Qual vossa análise sobre isto?
O
verdadeiro sentido do Natal vem sendo esvaziado no atual contexto da nossa
sociedade. Esta é uma infeliz constatação! Chego a pensar que chegamos a esta
realidade porque os interesses financeiros de alguns foram impregnando na
sociedade a lógica capitalista que muito bem soube captar o sentimento humano,
que é aflorado neste tempo. Sendo assim, usou a gratuidade do espírito do Natal
em favor de um comércio que tem profanado a mensagem cristã desta festa tão
importante!
2) É importante resgatar o sentido cristão da festa do Natal ou podemos dizer que, numa cidade pequena, como Itanhandu, tem-se a noção exata daquilo que há para ser vivido?
Sempre
é tempo de resgatar o verdadeiro sentido da vida, o sentido das pessoas, o
sentido das coisas. As coisas foram feitas para serem usadas, e as pessoas
foram criadas para serem amadas. Inverter esta compreensão é sempre um grande
risco! Usar as pessoas e amar as coisas não é nada bom. O Natal é a festa da
humanização de Deus, que veio até nós no seu filho, Jesus! Deus desejou ser
humano! Isso é maravilhoso! Não podemos desistir do que nos torna humanos.
Natal é tempo de curar as feridas de desumanidade que vão se abrindo e que
estão instaladas entre nós!
3) Qual é o sentido do Natal hoje?
Penso
que muitas pessoas já amadureceram a sua compreensão sobre o sentido do Natal e
estão concluindo que esta festa fica muito pobre, quando apenas a entendemos no
sentido comercial. O autor da obra “O Pequeno Príncipe” afirma que: “os homens
compram tudo pronto nas lojas. E como não existem lojas de amigos, os homens
não têm amigos”. O verdadeiro sentido do Natal é aquilo que conquistamos a
partir do amor que exige cuidado. Não é comprado; é pura gratuidade! Do cuidado,
que exige de nós a paciência de quem não tem pressa. O Natal tem um nome: Jesus
Cristo! Jesus é o sentido do Natal! Sem Cristo, o Natal é uma festa sem graça!
Infelizmente,
a violência sempre esteve presente na historia da humanidade. Não podemos
cansar de sermos pessoas de paz! A beleza do Natal está em permitirmos que a
pequenez do Menino Jesus seja sempre um recado de Deus para nós: a violência
nunca constrói o ser humano; só a paz torna o homem feliz. Precisamos ser simples e humildes, pois, onde
há simplicidade e humildade, sempre há espaço para a paz. O cristão é aquele
que nunca se acostuma com a violência porque leva, dentro de si, o Cristo, que
veio trazer ao mundo a Paz! Uma pessoa presidida pelos sentimentos de Deus
sempre aponta para a paz, que cura os corações violentos!
5) Por que o Natal se tornou um grande
culto ao consumo?
Talvez
seja por causa da propaganda que, no dizer comercial, “é a alma do negócio”! Há
um forte apelo ao consumismo, que está sempre atrelado à promessa de
felicidade. A propaganda mentirosa, de que só é feliz quem compra tal produto,
tem uma grande força sobre as pessoas, que, simplesmente, seguem a ideologia do
mercado! A propaganda chega a ser tão fascinante que leva muitos a perderem a
noção da realidade. Chega a ser uma verdadeira contaminação.
6) À medida que o Natal parece reunir, numa mesma festividade, cristãos e não cristãos, qual é o foco dessa celebração?
Jesus
veio para todos! Toda a humanidade foi tocada por Deus através da encarnação do
seu filho Jesus. Jesus é sempre referência para os cristãos e, também, aos não
cristãos, no quesito humanidade. Todo gesto de amor, de respeito, de
fraternidade, de cuidado sempre nos reportam aos ensinamentos de Jesus, que
“passou pelo mundo fazendo o bem”! Quando o critério do amor nos orienta,
aprendemos que é possível convivermos, mesmo que existam diferenças de
pensamento e de crenças. É próprio do amor, fazer-nos olhar mais o que nos une
do que para aquilo que nos divide!
7) Quais os valores devem ser cultivados para a chegada do Natal?
Penso
que Natal sempre nos faz pensar na família, que sempre será o nosso maior
valor. Família é presente de Deus para nós e, também, é conquista nossa de cada
dia! Se priorizarmos a família, mais humanos nos tornamos! Nunca podemos perder
a esperança, que deve permear as nossas relações familiares. Em toda família
onde se transpõem os obstáculos, permanece viva a esperança!
Penso,
também, que Natal é presença, mais do que dar presentes. É o tempo propício
para nos darmos sem reservas. Dar de si mesmo é a mais bela de todas as
dádivas. É, também, o tempo de
ampliarmos o nosso olhar para enxergarmos a presença do outro. Ninguém se
basta! Todos nos completamos à medida que nos amamos! O amor sempre pede
presença! Amar não é só dizer, é fazer; é mais do que isso: é ser!
Penso
ainda que Natal é o tempo de reacendermos a nossa luz interior, que chamamos de
fé! Há muita luz fora, e pouca luz dentro! Toda experiência de Deus nos faz
iluminados e nos torna iluminadores. Quando a luz de Deus brilha em nossos
corações, mais do que as luzes do mundo que seduzem o nosso olhar, vai
prevalecer sempre a luz maior que tem um nome: Jesus Cristo!
Entrevista cedida a Francine Levenhagen.
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