Alegrai-vos sempre no Senhor!
Anunciamos Jesus
Alegrai-vos sempre no Senhor!
Uma das características da nossa época é o pessimismo.
Multiplicam-se as reclamações por causa da falta de tempo, dos problemas econômicos, do trânsito, dos políticos, do time pelo qual se torce, do governo... Reclama-se de tudo e de todos.
O pessimismo tem a força de um “tsunâmi”: tudo destrói e tudo arrasta consigo; uma de suas primeiras vítimas é a esperança. Onde e quando falta a esperança, a vida se torna insuportável. Compreende-se, pois, que o poeta Dante tenha imaginado existir na entrada do inferno uma placa com os dizeres: “Vós, que aqui entrais, deixai fora a esperança!”.
Onde falta a esperança, falta a alegria.
Queremos ser felizes. Esse nosso desejo esbarra, contudo, numa constatação: nossos momentos de felicidade são marcados pela imperfeição, pela fugacidade e fragilidade. Na vida de muitos multiplicam-se, então, o tédio e a tristeza, a angústia e o desespero, a solidão e o vazio. Há uma enorme distância entre o que desejamos e o que conseguimos alcançar. O homem moderno, que pela técnica consegue multiplicar ocasiões de prazer, não consegue fabricar a alegria.
Há uma relação direta entre a vida cristã e a alegria. Quem entendeu isso muito bem foi o apóstolo Paulo, que pediu aos filipenses: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos”(Fl 4,4).
Curioso: Paulo estava na prisão, quando fez esse apelo à alegria. Ele havia aprendido que é possível estar cheio de consolo e transbordar de alegria, mesmo no meio de problemas e tribulações (Cf. 2Cor 7,2-4).
Não teria sentido falar da alegria se nada fizéssemos para que todos tenham um mínimo de segurança, de justiça e bem-estar; se não trabalhássemos para que a fraternidade crescesse ao nosso redor. Mas é igualmente importante valorizarmos as alegrias naturais: diante da vida, da natureza, do trabalho bem feito, do sol que se põe, do dever cumprido, da partilha, do sacrifício... Não se consegue fazer essa experiência sem um paciente esforço de educação. Não é fácil ter um coração de criança, capaz de experimentar as pequenas e humildes alegrias que se renovam mesmo em uma vida aparentemente monótona.
O que fazer para que todos tenham a possibilidade de fazer a experiência da alegria? Ela não pode ser vista como um dom para um pequeno grupo de privilegiados.
Na noite de Natal, os anjos deixaram claro aos pastores que estavam anunciando uma grande alegria “para todo o povo” (Lc 2,10). Era uma antecipação do que Jesus diria mais tarde: “Disse-vos estas coisas para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).
Ao fazer a experiência de Deus e, portando, da alegria, Santo Agostinho observou: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz” (Confissões, X, 27).
A alegria, conquista de Jesus Ressuscitado, é um dom do Espírito Santo. Somente quem o tem é capaz de saboreá-la, mesmo na aflição, no despojamento e na pobreza.
Olhando para os que nos cercam, perguntemo-nos: quantas pessoas fazem a experiência dessa alegria? Por outro lado, quantos vivem tristes, esmagados por problemas financeiros, familiares ou pessoais?
Trabalhar para que todos façam a experiência da alegria é dar o que nós mesmos recebemos gratuitamente, por pura bondade do Senhor.
Assim, evangelizar, isto é, levar a Boa Nova a todos, é, para nós, uma obrigação.
Para nossos irmãos e irmãs, ser evangelizados é um direito, já que também sobre eles foi derramado o Sangue de Jesus Cristo. Evangelizados, experimentarão a alegria que nasce no coração do Pai e que deve estar presente na vida de cada um de seus filhos e filhas.
Dom Murilo S. Krieger, Arcebispo Emérito de São Salvador da Bahia
Revista Brasil Cristão
Ano 27 - nº 314 - Setembro 2023

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