Entrevista - Intenção do Papa: Pelos idosos

 


A intenção do santo Padre, o Papa, para o mês de julho deste ano é pelos idosos.

Rezemos pelos idosos, que representam as raízes e a memória de um povo, para que a sua experiência e a sua sabedoria ajudem os mais jovens a olhar o futuro com esperança e responsabilidade.


“O futuro do mundo está nesta aliança entre os jovens e os idosos. Quem, senão os jovens, pode agarrar os sonhos dos idosos e levá-los a diante? Mas, para isso, é necessário continuar a sonhar: nos nossos sonhos de justiça, de paz, de solidariedade reside a possibilidade de os nossos jovens terem novas visões e, juntos, construirmos o futuro.”

Papa Francisco



Apreciemos a deliciosa entrevista feita com a senhora Maria Donotila Lima de Mancilha, mais conhecida como Tila.



Sinto-me honrada em participar desta entrevista, proposta por Renato Carneiro, atendendo aos apelos do Papa Francisco para nos lembrarmos dos idosos em nossas orações. Corajosamente, quero dilatar meu coração e cumprir, de maneira sincera, esta prazerosa tarefa. Meu nome é Maria Donotila Lima de Mancilha, mais conhecida como Tila. Nasci na zona rural chamada Água Limpa, município Gimirim, atualmente Poço Fundo, no dia 30 de julho de 1935. Aos 7 anos, fui morar em Gimirim, e aos 10 em Alfenas, lá permanecendo até os 24 anos. E,m 1959 casei-me com Enu Pinto de Mancilha, residente em Itanhandu e tivemos dois filhos, Maria Rosilene e Luiz Fernando, nascidos em Itamonte, onde morávamos desde o início do casamento. Os netos são Tiago e Maria Clara, filhos de Rosilene e Marco Antônio; e Lucas e Mateus, filhos de Luiz Fernando e Luciana. Voltei a Alfenas para estudar os filhos e regressei a Itamonte em 1982.  Em 2001, mudei-me para Belo Horizonte, para cuidar do Tiago e, um pouco depois, da Maria Clara, também, que estudavam lá. Agora estou aqui, nesta abençoada Itamonte para concluir meus dias. Os dois velhos vivem cantarolando; não por demência, mas pela alegria da missão cumprida. Enu, com quase 89 anos, cuida de mim, com a dedicação de um pai. Estamos casados há 63 anos e orgulhamo-nos da família que construímos apoiados em Deus e na Virgem Maria.

1) Para a senhora, o que é ter qualidade de vida?

    O essencial para termos boa qualidade de vida é acreditar que somos criados à imagem e à semelhança de Deus. E, nesta crença, entregarmos todo o nosso viver, na certeza de que tudo vai dar certo, cuidando para que a mente esteja em paz, respeitando a saúde, adquirindo bons hábitos, usufruindo das belas coisas que a natureza nos oferece: um lindo por do sol, a chuva benfazeja, flores, pássaros, borboletas, variedades incontáveis.  Para mim, qualidade de vida depende do estado de espírito, da alegria por tudo que somos e possuímos. Depende, também, de soltar o pensamento no mundo de fantasia, e fazer  de conta que tudo está bem. Cantarolar, viver momentos de ternura nos encontros, nos amores e nas amizades. Enfim, qualidade de vida é esforçar-se para ser feliz, independentemente, das dores, limitações, guerras e pandemia. Se conseguirmos realizar esta viagem ao mundo da fantasia, poderemos constatar que somos, realmente, criados à imagem e à semelhança de Deus.


2) De um modo geral, a senhora está satisfeita com sua saúde?

    Posso afirmar que estou satisfeita com a maneira que convivo com minhas limitações, agradecendo pelo o que ainda restou neste final de caminhada. A saúde do corpo, muitas vezes não possibilita satisfação. Mas, o que me traz imensa alegria é a saúde da mente, capacitando-me para participar desta entrevista. Sinto-me satisfeita, muito satisfeita, também, em poder cantar, comunicar com as pessoas, não apenas à distância, mas através da janela do quarto, quando os compromissos permitem. Tento aplicar tudo o que aprendi sobre o amor, para não ficar uma velha lamuriosa preocupando e aborrecendo aos que me ouvem. E pedir a Deus para conservar-me alegre, humilde e com aceitação. Nos momentos das dores, penso com gratidão, que Jesus sofreu muito mais sem reclamar. Por isto, eu devo seguir o Seu exemplo.

3) Na opinião da senhora, qual a importância da fé no seu dia a dia?

    É impossível descrever sobre a importância da fé em minha vida, sem recordar-me do período mais difícil que vivi, quando tive que agarrar-me a ela, com coragem e determinação, acreditando que seria a única força capaz de arrancar-me da indecisão, que tanto atormentava meu espírito. Desejava ingressar-me no convento, porque a vida religiosa sempre me atraiu, mas minha mãe não permitiu que eu acatasse a este chamado. Eu estudava no colégio das Freiras, participava da Pia União das Filhas de Maria, era assídua em todas as celebrações da Igreja. Ao terminar a quarta série ginasial, denominação da época, papai aconselhou-me a mudar de colégio e cursar contabilidade, para que pudesse ajudá-lo no escritório. Os primeiros dias da nova escola foram de várias surpresas: moças e rapazes alegravam a entrada no colégio. Eu parecia um peixe fora d'água, acostumada que estava em um colégio muito disciplinado e só com mulheres. Os dias vão passando e eu tentava me isolar cada vez mais. Não queria nenhum envolvimento com ninguém por conservar a ideia de ir para o convento. Ao proferir a chamada dos alunos, o então regente da classe falou meu nome incompleto, semelhante ao nome de uma garota de má fama. Quando os demais alunos  saíram, fui até ele e pedi que falasse meu nome completo, sem revelar o motivo. Mais tarde, me confessou que havia se encantado por mim e, a partir dali, cada vez que fazia chamada, me olhava e eu abaixava a cabeça. Insistiu tanto, dava mil desculpas para se encontrar comigo depois das aulas. O seu jeito de moço tímido e simples foi me cativando. Numa tarde, ao terminar a aula, ele me acompanhou e eu morrendo de fome, mas, só por educação, perguntei se ele queria tomar café comigo. A resposta foi: “hoje, não posso. Tenho ainda mais uma aula. Mas, no domingo, às duas horas da tarde, vou até sua casa tomar este café.” No domingo, pontualmente às 2 horas da tarde, eu o vi chegar pela janela do meu quarto, de onde se avistava a calçada. Eu nem me lembrava mais daquele compromisso. Ao abrir a porta da sala, estava ele na varanda. Terno cinza claro, ansioso pelo café prometido. Ao voltar das férias, ele continuava a insistir na conquista. Percebi, então, que eu havia me apaixonado. Comecei a viver uma fase de indecisão e sofrimento. Fazia sacrifícios, chorava muito e rezava com muita fé, pois acreditava estar traindo a minha real vocação. Mas, a minha fé que nunca me abandona, conseguiu me mostrar o caminho que eu deveria percorrer. Outros momentos difíceis, sempre os enfrentei com coragem, por acreditar nessa força misteriosa: a minha fé. Até hoje, no meu dia a dia, presencio este envolvimento com meu Deus, que nos ama e com Maria, nossa Mãe, que nunca me abandonou e não abandona ninguém. Não fui para o convento, mas Maria preparou um jovem também religioso, congregado Mariano, para, juntos, construirmos nossa família baseada na fé.


4) A senhora pratica exercícios físicos com alguma frequência?

    Há tempos, fazia exercícios em uma academia. Frequentei aulas de pilates, mas deixei, pelo fato de ter feito cirurgia de catarata. Atualmente, faço exercícios em casa, orientados por uma preparadora física. As minhas limitações não permitem mais que eu frequente academia.


5) Quais os desafios da terceira idade na comunidade?

    O maior desafio para mim agora é ter que renunciar a participação na comunidade, principalmente, ir à igreja com frequência, fazer as visitas da Pastoral da Pessoa Idosa, cantar nas celebrações e fortalecer a fé nas reuniões. Não quero viver do passado, mas sinto muita saudade de viver na comunidade, vivendo dias de encantamento, repartindo abraços e deixando o coração feliz ao acompanhar as procissões e também realizar confraternizaçãoes. É evidente que diversas mudanças sejam necessárias na comunidade, em se tratando da idade madura, diferente dos eventos para os mais jovens. Aquelas alegres reuniões em outras cidades, onde participavam diversas pastorais, as tardes de reflexão mescladas com momentos teatrais, não mais acontecem para nós. Os idosos não têm mais disposição para ficar muito tempo dentro de um carro ou de um ônibus, sentados em cadeiras nem sempre confortáveis. Enfim, vamos entregar nosso caminho ao Senhor, confiar nEle e viver felizes em nossa terceira idade.


6) Com a maturidade adquirida com o tempo, qual conselho daria aos leitores?

    O conselho que eu daria é respeitar nosso bem mais valioso, que é a vida. O grande segredo para respeitar a vida, agora com maturidade, eu vejo isto muito claro, é ser fiel à sua religião. Acredito que ela é um freio, que não permite deslizes na caminhada. A participação nos sacramentos dá segurança e, para mim, até hoje, os sacerdotes são meus psicólogos. Outro conselho: saiba pedir perdão e perdoe sempre, até àquelas pessoas que não lhe pedem. Isto poderá exigir muito esforço, mas vale à pena. Seja uma pessoa autêntica, cultive a sinceridade sem grosseria,  e quando disser que ama, que esta palavra saia do coração sem falsidade. Seja humilde. Responda, reparta seus dons em benefício da comunidade. Cante, dance, dê risada, sem precisar de algo. Arremate a vida em paz, sem dívidas e sem inimigos. Ao entardecer, seremos julgados apenas pelo amor que repartimos e conquistamos.


7) Qual o segredo para ter uma boa qualidade de vida na terceira idade?

    Na minha opinião, o segredo para ter uma boa qualidade de vida na terceira idade, vai depender do seu início. Pais responsáveis, preocupados em cuidar do filho, desde o ventre materno, e quando for crescendo oferecer boas condições para que tenha saúde, disciplina para respeitar as horas de sono, valorizar a espiritualidade, cuidar da alimentação e outros procedimentos para tornar um adulto saudável, sem adquirir vícios que destroem a vida. Com o tempo, as escolhas poderão favorecer a qualidade da vida tão desejada por todos. Infância, adolescência, idade adulta, velhice: tudo passa tão depressa. Faço uma avaliação da minha vida e asseguro que nunca pensei que fosse durar tanto, quase 87 anos. Posso assegurar, também, que apesar de não estar muito saudável, tenho ótima qualidade de vida, muito carinho de todos da família e dos amigos; capacidade de adaptação, aonde quer que eu vá e aceitação das dores e enfermidades, Acredito que sempre fiz boas escolhas e aprendi a renunciar.


8) Como a fé pode ajudar os idosos que são solitários e enfrentam depressão?

    A fé pode ajudar na recuperação de um idoso solitário e depressivo, pela força misteriosa que existe em sua essência. A certeza de que não somos criados para este mundo, mas para a eternidade, acende nesta alma sofrida, uma luz prometida por Jesus Cristo. Tive a oportunidade de lidar com pessoas depressivas e, por inspiração do Espírito Santo, tentei ajudá-las. Tive muita cautela para não ser invasiva, permitindo que o doente se manifestasse espontaneamente. Percebi que nestas situações, além do tratamento adequado, o carinho, a atenção, mesmo à distância, são, extremamente, necessários. Palavras certas, em determinados momentos, são remédios. A Virgem Maria envolveu a vida destas pessoas, e aos poucos, os sintomas foram desaparecendo, porque os depressivos mergulharam no misterioso poder da fé. Que o Senhor nos faça Seus instrumentos. 


Entrevista cedida a Francine Levenhagen.




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