O AMOR TRANSFORMA TODAS AS COISAS*
Chegou o dia do encontro... Qual não foi minha surpresa, quando José me encontrou no Facebook. Estudamos juntos no primário e não nos víamos há mais de 20 anos. Morávamos na mesma favela. Hoje, eu lidero uma ONG, e ele, para minha surpresa, tornou-se padre. Dois negros, da favela, somos uma exceção!
Ele marcou um
encontro após a Missa, mas, embora não fosse à igreja havia muito tempo, estava
curioso para ver um padre negro, da favela, no altar. Cheguei a tempo do
sermão. Não é que o rapaz era bom? Até que não falou demais. De repente, ouvi
uma coisa que me incomodou: “Por que Deus
nos criou? Deus nos criou por livre e desinteressado amor”. Eu não pensava
assim. Fomos abandonados ao acaso, tudo não passava de acaso. Assim, foi minha
vida.
A Missa
terminou, encontrei o padre José na sacristia e, após cumprimentos, me disse
que havia uma excelente pizzaria ali perto da igreja. Fomos até lá, um ambiente
muito legal. Ele, então, me disse:
– Felipe, eu
me mudei da comunidade depois da segunda série. Meus pais foram para outra
favela, onde a proximidade de pessoas boas salvou a nossa vida, pois passávamos
muitos apertos. Lá, muita gente foi referência para mim. Eu ouvi tantas coisas
bonitas da fé e, de repente, me senti chamado por Deus. O tempo passou, e fui
para o seminário...
Entre garfadas
na pizza e goladas do delicioso vinho, ríamos das peripécias da época do
seminário. Aconteceram alegrias, medos e muita superação.
– Fiquei feliz
pelo rumo aonde o destino o levou. Mas eu, que sou muito transparente, não poderia
deixar de iniciar minha história com o incômodo que sua pregação me causou.
José, ou
melhor, padre José, é fantástico tudo isso! Eu não perderia a oportunidade de
chegar mais cedo hoje e ver o seu trabalho. E não quero que o vinho me faça esquecer
de lhe dizer que não concordo com o que disse sobre Deus ter criado as coisas
por amor. Ou se tem sorte ou azar.
Veja minha
história: Eu nasci num barraco de favela, de chão batido. Meu pai entrou no
mundo do crime e logo foi preso. Ainda quando estudei com você no primário, eu
acompanhava minha mãe na visita ao presídio. Eu só tinha 10 anos e cresci vendo
minha mãe sendo revistada, nua, para entrar na prisão e ver meu pai. Que
consequências emocionais isso não poderia ter na vida de um jovem preto, pobre,
da favela!
E sabe de uma
coisa, caro amigo: quem me salvou da perdição foi minha mãe. Acredita que, todo
santo dia, ela me olhava bem dentro dos olhos, e me dizia: “Meu filho, guarde
bem isso. Não importa de onde você vem. Na vida, o que importa é pra onde você
vai. E você, meu filho, pode ir aonde você quiser. Enquanto você tiver
escolhas, é capaz de mudar o mundo. Então, vamos embora, levante logo daí!”
Ah! Essa Dona
Maria, que força tem essa mulher! Nessa vida, nem todo mundo tem uma Dona
Maria. Daí, eu vejo a importância que têm as políticas públicas para fazerem os
pobres descobrirem que há escolhas.
– Meu irmão,
disse-me o padre, que pousou a taça de vinho sobre a mesa e levantou os olhos
cheios de lágrimas, conte-me o que aconteceu depois disso.
– Nossa,
padre, eu nem acredito. Eu me formei e, depois, escrevi um livro com uma
história de superação. Vendi todos os exemplares, com ajuda de amigos, de porta
em porta. Com o dinheiro, fundei uma ONG onde tento ajudar outros jovens das
favelas.
Então, meu
amigo padre apenas disse:
– Digo-lhe, Felipe,
algo que me comoveu. Na Missa, eu dizia que Deus nos criou por livre e
desinteressado amor. Sua mãe o fez descobrir dois presentes que Deus nos deu: a
liberdade e o amor, com os quais criou tudo que existe. Olhe para si mesmo e
verá que o amor é capaz de transformar todas as coisas, mas, se houver segundos
interesses, não é amor. É assim que eu entendo que Deus criou tudo na liberdade
de seu amor.
À despedida do
padre José, eu, que há muito briguei com Deus, fiquei com uma pulga atrás da
orelha: Será que o que eu chamei “acaso”, todos esses anos, era Deus cuidando
de mim? Ou Deus estava presente quando eu cuidava dos outros? Deixe isso pra
lá, senão eu é que vou para o seminário daqui a pouco...
Ainda tenho projetos e sonho alto: vou criar a maior rede de ajuda do mundo! Irei conseguir? Não sei, mas minha mãe me ensinou algo mais: “Meu filho, se você estiver incomodado com essa realidade, construa uma realidade diferente”. Essa Dona Maria parece mesmo ser inspirada por Deus, pois tem um amor que não cabe dentro de si, o qual é capaz de abraçar o mundo...
Por
Pe. Josimar Cândido Lourenço
*Ficção criada a partir da entrevista de Edu Lyra ao programa Roda Viva em 29 de março de 2021.
https://br.depositphotos.com/free-collection/universo.html?qview=116147558

Linda crônica,parece uma história Tema.Parabéns Pe.Josemar,além de grande pregador,parece também que é escritor!!
ResponderExcluirObrigado, Dona Terezinha! Me inspirei na história mencionada do rapaz e no encontro com um amigo de infância pelo Facebook. Então articulei com as reflexões do Catecismo da Igreja.
ExcluirEu disse...parece uma história real.
ResponderExcluirÉ baseada em várias vivências...
ExcluirLinda crônica,parece uma história Tema.Parabéns Pe.Josemar,além de grande pregador,parece também que é escritor!!
ResponderExcluirGostei muito, Padre Josimar! Crônicas são agradáveis de ler é sempre deixa sábios ensinamentos.
ResponderExcluirParabéns padre josimar!!!sábias palavras 🙏🏻🙏🏻
ResponderExcluirQue lindo !!! Parabéns Padre Josimar !!!
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