Entrevista - Intenção do Papa: Por quem perdeu um filho
A intenção do Santo Padre, o Papa, para este mês de novembro é por quem perdeu um filho.
Rezemos para que todos os pais que choram a morte de um filho ou filha encontrem apoio na comunidade e obtenham do Espírito consolador a paz de coração.
Refletir sobre o luto de pais que perderam um filho é uma questão profundamente sensível e carregada de emoções.
Meditemos, com compaixão, sobre esses pais que enfrentam uma perda tão dolorosa.
A entrevistada deste mês de novembro é Raquel Lopes da Mota, nascida em 15/03/1944, em Bom Jardim de Minas.
Mudou-se para Itanhandu com 4 anos de idade e, aqui reside há 76 anos, pertencendo, de coração, a esta cidade.
Viúva, professora aposentada. Foi Catequista por muitos anos, mesmo quando teve de acompanhar o ex-marido nas mudanças.
Morou na Bahia, no Vale do Jequitinhonha e, ao voltar, mesmo estando divorciada, Padre Rogério, um grande amigo de família, permitiu que Raquel continuasse a catequizar.
A última vez que exerceu o ofício de Catequista, foi em uma preparação para a Crisma.
Gosta de escrever poemas, crônicas, principalmente quando eles são referentes a fatos acontecidos nos anos cinquenta em nossa cidade.
No momento, apesar de ter feito parte de algumas antologias poéticas, não pretende lançar livro com seus poemas. Mas está "trabalhando" em histórias infantis, em versos, que, talvez, sejam publicados.
Sempre foi voluntária em qualquer ação em prol da população.
Atualmente exerce o papel de "avó, mãe" de seu netinho que perdeu a mãe (filha de Raquel).
É grata por ter sempre consigo seu outro neto e sua outra filha, agora única, que é um verdadeiro Anjo, seu porto seguro.
É católica e não consegue se ver em outras crenças, embora respeite e ajude quaisquer pessoas que, dela, precisarem.
1) De que maneira a comunidade pode oferecer apoio prático e emocional aos pais que perderam um filho, especialmente nos estágios iniciais do luto?
É um período bem difícil...No luto nos "fechamos", sem vontade de ver ninguém.
O nosso luto foi tão doído que não conseguimos ir à Missa do Sétimo dia, entrar nas redes sociais, por muito tempo.
Acredito que a maioria se sente assim. No entanto, as visitas, se podemos assim chamar, eram bem vindas.
Evitar acúmulo de pessoas, mas se a comunidade, as pessoas que só nos dariam consolo, pudessem ir até a casa, sem " forçar" nada, mas conversar, apoiar, convidar para orar junto, sem dúvida ajudaria muito.
2) Como podemos promover uma cultura de empatia e compaixão em relação aos pais enlutados, reconhecendo a complexidade e a intensidade de sua dor?
Creio que seja bem difícil...
Só quem passou por essa dor, compreende a intensidade dela.
Criar um grupo de pais e mães que passaram por isso, em algum lugar seria o ideal.
Desabafar, pessoas ouvindo (queremos que nos ouçam) temos necessidade disso!
Cada pessoa comentando e, sejam Padres, psicólogos, dando um suporte, ajudará muito.
Me lembro que fiquei revoltada, questionava a Deus o porquê de tudo.
Se o tempo todo coloquei meus joelhos no chão implorando para que isso não acontecesse e "não fui atendida", resolvemos ir a Aparecida.
Lá resolvemos (nós todos) nos confessar diretamente com um Padre e não em uma Confissão Comunitária.
Dando aqui meu testemunho: só reclamei, estava revoltada, chorei e para meu espanto, o Padre chorou comigo.
Disse que eu tinha toda a razão.
Eu estava vivendo o meu luto, estava sendo egoísta naquele momento, mas estava certa. Tinha que desabafar, tinha que ser ouvida.
Só depois ele perguntou tudo sobre a filha que perdi.
E tentou que eu compreendesse o propósito de Deus.
As pessoas só vão depois que cumprirem o que lhes foi dado a cumprir.
A visita de um Padre na casa enlutada ou de um atuante na Igreja, ajudaria muito a chegar nesse ponto.
Só quem passou por essa dor, compreende a intensidade dela.
Criar um grupo de pais e mães que passaram por isso, em algum lugar seria o ideal.
Desabafar, pessoas ouvindo (queremos que nos ouçam) temos necessidade disso!
Cada pessoa comentando e, sejam Padres, psicólogos, dando um suporte, ajudará muito.
Me lembro que fiquei revoltada, questionava a Deus o porquê de tudo.
Se o tempo todo coloquei meus joelhos no chão implorando para que isso não acontecesse e "não fui atendida", resolvemos ir a Aparecida.
Lá resolvemos (nós todos) nos confessar diretamente com um Padre e não em uma Confissão Comunitária.
Dando aqui meu testemunho: só reclamei, estava revoltada, chorei e para meu espanto, o Padre chorou comigo.
Disse que eu tinha toda a razão.
Eu estava vivendo o meu luto, estava sendo egoísta naquele momento, mas estava certa. Tinha que desabafar, tinha que ser ouvida.
Só depois ele perguntou tudo sobre a filha que perdi.
E tentou que eu compreendesse o propósito de Deus.
As pessoas só vão depois que cumprirem o que lhes foi dado a cumprir.
A visita de um Padre na casa enlutada ou de um atuante na Igreja, ajudaria muito a chegar nesse ponto.
3) De que maneira o apoio espiritual e a fé podem ser fontes de consolo e esperança para os pais enlutados, mesmo em meio à dor?
Muito importante um apoio espiritual nessa hora. Nesse momento, ficamos sem chão, sem Fé, totalmente descrente.
É nessa hora que precisamos, mesmo sem perceber, desse apoio... Do contrário, afastamos de tudo o que se refere à Igreja, perdemos a Fé, perdemos o rumo de tudo.
Somos fracos, temos a certeza que nossa dor é maior que a de todo mundo.
Um apoio Espiritual seria um recomeço, um caminho para a aceitação.
4) Como podemos promover um ambiente de aceitação e compreensão para os pais enlutados, permitindo-lhes expressar livremente sua dor e suas emoções?
Um culto, vamos dizer assim, onde um Coordenador, sugiro um Padre, fale sobre essa dor, interrogando as pessoas presentes sobre o que estão sentindo, como estamos "enfrentando" o viver no dia a dia.
Seria na Igreja, poderia ser uma coisa mais íntima, se estou conseguindo me expressar claramente. Até numa sala de nossa Paróquia, de portas fechadas. Não abordar o assunto logo no início, mas uma preparação para que todos se sentissem acolhidos e prontos a falar de sua dor.
5) Quais são algumas maneiras práticas de ajudar os pais enlutados a manter a memória de seus filhos vivas e significativas em suas vidas?
Talvez, não posso falar por todos, mas canalizar essa dor, manter viva essa memória, convidando a fazer algum movimento, na própria Paróquia. Talvez, visitas em grupos , em lugares onde outras pessoas estão vivas, sofrendo, sendo esquecidas por todos.
E, ao compartilhar a sua dor, torna as dores de ambos, menos pesadas.
Tudo teria que ter uma orientação tanto espiritual como de um psicólogo.
6) De que forma podemos criar espaços seguros e acolhedores onde os pais enlutados possam compartilhar suas histórias e seus sentimentos sem medo de serem julgados ou ignorados?
Na época em que sofri essa perda, há quatro anos, era Pandemia. Recebi a visita do Padre Josimar. Veio com uma proposta, mas nos ajudou tanto! Me convidou para fazer parte de um Grupo no Facebook , onde descrevíamos sobre um tema proposto.
Começou por aí, mas nos ouviu, orou conosco, abençoou meu neto que tinha meses e conviveu com a mãe só por cinco dias.
Foi uma super visita que veio com vários propósitos. Os assuntos que ele nos apresentou, requeria muita pesquisa, muita leitura até resumir em uma crônica. Enfim, nos manteve de uma certa forma, focados em outros assuntos.
Foram maravilhosas a visita e as crônicas.
Senti Padre Josimar ter ido embora e não ter um coordenador para continuarmos esse trabalho.
Seria interessante voltar com esse Grupo, onde, por meio de pesquisas, esquecemos um pouco da dor.
7) Qual é o papel dos amigos, familiares e vizinhos na prestação de apoio prático e emocional aos pais enlutados, e como podemos incentivar essas redes de apoio?
Geralmente os vizinhos, amigos nos dão muito suporte.
No meu caso só tenho a agradecer.
Mas os que não têm esse apoio?
Seria necessário preparar pessoas que pudessem prestar esse serviço, ou melhor, essa caridade.
Como disse antes, precisamos de quem nos ouça primeiro, depois essas pessoas podem canalizar essa dor para outros objetivos.
Além do apoio das pessoas que me eram próximas, fui convidada a fazer parte de um Grupo maravilhoso: Prosa e Verso.
Nesse grupo, eram sugeridos temas para que nós os transformássemos em crônicas ou poesias. Isso ajudou muito mesmo!
Estávamos passando pela Pandemia, isolados de todos e esse Grupo mantinha contato todos os dias só com mensagens boas. Despertou em nós, poetas, cronistas de todos os tipos.
Por que não criar essa rede de apoio, tendo um psicólogo, Padre como orientador?
8) De que forma podemos honrar e lembrar os filhos que partiram, criando rituais e tradições significativas para os pais enlutados e suas famílias?
Não dá para esquecer de quem amamos. Não esqueço de minha filha em nenhum momento. Vejo-a no sorriso de meu neto, na repetição de um comportamento dele parecido com o dela. Quando tem apresentação dele na Escola, sinto muito, mas não consigo controlar, choro muito! Não me conformo por ela não estar presente vendo o que eu, bem mais velha, estou sendo contemplada. Perdi duas outras filhas que só abriram os olhos por uns instantes e partiram. Sofri muito apesar de nem me deixarem ver. Até hoje rezo por elas que são Anjos, não foram "contaminadas" por esse mundo. Minha filha amava a vida, festas, tinha os olhos sempre brilhantes. Minha menina sorriso...Isso penso que só a nós cabe lembrar, honrar e viver esses momentos que foram. Em casa, temos as fotos dela e de meu neto, por ele mesmo, pediu que colocasse no quarto dele as fotos: dele na barriga da mamãe Sissil, de ela segurando ele, da mamãe Juju com ele no colo, ainda bebê, minha foto com ele também e a do "irmão" segurando ele no colo. Falamos muito dela pra ele. Ele mesmo, diante de algum acontecimento, comemoração, já pergunta o que a mamãe Sissil faria nessas ocasiões. Adora conhecer os amigos dela, os chamam de tio e tia por conta dele.
É interessante orientar as famílias enlutadas a vivenciar isso.
Deixar fotos onde todos da família possam ver, falar com alegria sobre a pessoa que se foi.
Às vezes, as pessoas fazem disso um tabu, mas é importante, para todos, que mantenham vivas essas recordações.
No entender de meu neto, Papai do Céu precisou dela muito e hoje, ela é a estrela mais brilhante do Céu.
Às vezes, à noite, meu neto fala em voz alta com ela, contando o quanto divertiu.
Não é impor na criança, mas contar a verdade sobre a ausência e satisfazer a curiosidade dela quando formos interrogados.
Entrevista cedida a Francine Levenhagen.



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