ENTREVISTA - Intenção do Papa: uma missão comum

 


A intenção do Santo Padre, o Papa, para este mês de outubro, é por uma missão comum.

Rezemos para que a Igreja continue a apoiar de todas as formas um modo de vida sinodal, sob o signo da corresponsabilidade, promovendo a participação, a comunhão e a missão partilhada entre sacerdotes, religiosos e leigos.

O conceito de uma missão comum na Igreja, especialmente sob a luz de um modo de vida sinodal que enfatiza a corresponsabilidade, a participação, a comunhão e a missão partilhada, abre um espaço rico para reflexão e ação. 

Reflitamos, profundamente, sobre como a Igreja, em todos os seus níveis, pode viver mais plenamente sua vocação sinodal, promovendo uma missão comum que seja inclusiva, participativa e voltada para a transformação do mundo à luz do Evangelho.




O entrevistado deste tema tão atual é Pe. Jean Poul Hansen, natural de Cruzília – MG e ordenado presbítero em Baependi – MG. Pertence ao clero da diocese da Campanha – MG, onde já foi pároco,  assessor diocesano da catequese, professor nos seminários e coordenador diocesano de pastoral. É mestre em Teologia Dogmática pela Universidad Pontificia de Salamanca (2014), especialista em Origens do Cristianismo pelo Instituto Agostiniano de Valladolid (2013), ambos na Espanha. É também especialista em Doutrina Social da Igreja pela PUC-GO (2024). É docente da Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG, licenciado  para exercer sua função atual de Secretário Executivo de Campanhas na CNBB, em Brasília – DF.



1) Como a Igreja pode facilitar uma maior participação de leigos, sacerdotes e religiosos na vida e na missão da comunidade eclesial, respeitando os diferentes dons e vocações de cada um?

    A sinodalidade é a resposta a este desafio. O reconhecimento que ela promove dos diversos dons e carismas distribuídos pelo Espírito no seio de uma comunidade, desde a menor à maior, é a atitude necessária para que todos – e cada um – se sintam responsáveis pela vida e missão da comunidade eclesial.


2) De que maneira a prática da sinodalidade pode ajudar a Igreja a ouvir mais atentamente o Espírito Santo e a responder mais eficazmente aos desafios contemporâneos?

    O Papa Francisco, em 2015, nos ensinou: “Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta [...] escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o ‘Espírito da verdade’ (Jo 14,17), para conhecer aquilo que Ele ‘diz às Igrejas’ (Ap 2,7)”. Cada um de nós e cada um de nossos organismos, conselhos, grupos, coordenações, é capaz de captar algo da realidade, mas nunca a realidade inteira. Por isso, a escuta uns dos outros leva-nos à compreensão mais próxima do integral, do todo, da realidade na sua totalidade. Essa escuta mútua nos ajuda a escutar o Espírito de Deus e só assim alcançamos o todo e não nos prendemos na parte, na minha parte, na minha percepção sempre limitada dos desafios do mundo atual.


3) Quais estruturas ou processos podem ser desenvolvidos ou aprimorados para promover uma verdadeira corresponsabilidade na missão da Igreja?

    Na nossa bonita realidade eclesial brasileira, precisamos valorizar as pequenas comunidades e seus conselhos, evitando toda e qualquer decisão pessoal, unilateral ou autoritária de quem quer que seja, tanto dos padres quanto dos leigos. Desde as pequenas decisões, como o horário da catequese ou da celebração dominical da Palavra, até a programação da festa do padroeiro ou o projeto de reforma da Capela ou da Igreja Matriz, tudo deve ser feito de forma coletiva, escutando uns aos outros. Só assim teremos a tranquilidade de nos saber fazendo a vontade de Deus, uma vez que ele disse: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, aí eu estarei no meio deles” (Mt 18,20).


4) Como as experiências e perspectivas dos jovens podem ser melhor integradas na vida da Igreja para enriquecer sua missão e promover uma igreja verdadeiramente intergeracional?

    Há uma frase que diz que a Igreja só será jovem quando os jovens forem Igreja. A presença dos jovens na comunidade e nos seus conselhos é a garantia de que, nos processos sinodais de escuta e decisão, suas experiências e perspectivas serão ouvidas e levadas em consideração. Se os jovens permanecem distantes, passivos, aguardando o dia vindouro, fechados em seus grupos, como em guetos, isso nunca acontecerá. A vida da Igreja acontece na comunidade. É lá que os jovens devem estar e atuar se quiserem fazer parte dos processos de decisão. Doutra parte, aqueles que já fazem parte da comunidade e dos seus conselhos devem preocupar-se constantemente em abrir-se aos jovens, a fim de garantir a vida da comunidade para as gerações futuras.


5) De que forma a Igreja pode se abrir mais à colaboração ecumênica e inter-religiosa como parte de sua missão comum, reconhecendo o que pode ser aprendido e compartilhado com outras tradições de fé?

    O diálogo situado no contexto e no território é sempre o caminho. A Igreja abre-se à colaboração ecumênica e inter-religiosa quando ela se abre a dialogar com suas comunidades e lideranças. O caminho do diálogo não deve começar pela doutrina, mas sim pela ação sócio caritativa e pela oração. Ou seja, precisamos aprender a estar juntos e colaborar, colocando juntos a mão na massa, nos momentos em que a sociedade reclama a atuação da Igreja. Por exemplo, nas catástrofes ambientais, como as enchentes. Os atingidos normalmente são de diversas denominações. Por que não nos juntarmos e planejar juntos as ações de socorro e reconstrução? Depois, celebrar juntos os resultados, de forma ecumênica. Nós já fazemos isso nas nossas famílias. Precisamos aprender a fazer em nossas comunidades.


6) Como os ministérios leigos podem ser valorizados e promovidos dentro da comunidade eclesial, reconhecendo a sua importância vital na missão evangelizadora da Igreja?

    Nós só valorizaremos os ministérios leigos quando valorizarmos os leigos e leigas. E a valorização dos leigos e leigas parte da nossa compreensão correta do Batismo. Ele é o primeiro sacramento, que nos faz participantes do único sacerdócio de Cristo. Pelo Batismo, todos nós somos sacerdotes, profetas e pastores. Daí decorre nossa missão sacerdotal, profética e pastoral. Se não compreendermos que não é a Ordenação Sacerdotal que garante que a nossa oração chegue ao céu, mas que pelo Batismo, todos nós podemos e devemos elevar orações, súplicas e ações de graças ao Pai, por Cristo Jesus, jamais daremos a nós mesmos o valor que Deus nos deu. 98% do Povo de Deus é leigo. 99,9% das nossas comunidades são formadas de leigos e leigas. Por que só participar da celebração quando há um padre? Por que só aceitar o Batismo se ele for feito pelo padre? Ser comunidade é a essência do cristianismo.


7) Quais iniciativas concretas podem ser adotadas para encorajar a comunicação aberta e honesta dentro da Igreja, superando divisões e promovendo a unidade na diversidade?

    Nenhuma iniciativa dará frutos se não houver diálogo, diálogo sincero, transparente, corajoso, diálogo de irmãos, que agora se estranham porque pensam diferente, rezam diferente, agem diferente, mas daqui a pouco se abraçam porque, apesar das diferenças, há algo que os une e que é muito mais importante: são filhos do mesmo Pai, salvos na mesma Cruz, habitados pelo mesmo Espírito. Isso é sinodalidade: caminhar juntos na diversidade.


8) De que maneira a formação teológica e espiritual dos fiéis pode ser aprofundada para equipá-los melhor para a missão comum da Igreja?

    A formação teológica e espiritual não pode, ela precisa ser aprofundada. Qualquer cristão que deseje alcançar a “maturidade de Cristo” (Ef 4,13) deve se ocupar da sua formação humana e cristã. Não dá para ser bom cristão sem ser gente boa. E crescer na fé necessariamente nos tornará gente melhor ainda. Essa formação necessária começa pela Palavra de Deus. Ela precisa fazer parte do nosso dia a dia. Sem fagulha de fundamentalismo, precisamos ler, meditar, rezar e contemplar a Palavra de Deus, deixando que Ele transforme a nossa vida, modifique os nossos critérios de julgamento, as nossas escolhas e as nossas atitudes. Depois, precisamos ler bons livros, adequados ao nosso estágio de crescimento; assistir a bons vídeos e filmes, ouvir bons podcasts, etc. Sempre tomando cuidado com o fundamentalismo e o radicalismo. E evangelho exige radicalidade, mas não admite radicalismo. Sempre em comunhão com a Igreja, que se dá na comunhão com o pároco e com o bispo diocesano, chegando por eles ao Papa.


9) Como a Igreja pode enfrentar de forma eficaz os desafios da secularização e da indiferença religiosa, reafirmando a relevância do Evangelho na vida cotidiana das pessoas?

    Não há outro caminho senão pela força do testemunho. Não é gritaria que vai convencer quem já se decepcionou ou quem ainda não experimentou a importância de ser Igreja no seguimento de Jesus Cristo. É o testemunho! Na Igreja primitiva, os pagãos olhavam para nós e diziam: Veja como eles se amam! Enquanto nossa vida não disser o testemunho do Evangelho, é melhor ficarmos calados. Se não deixarmos que o Evangelho transforme a nossa vida, por que queremos que outros abracem o Evangelho? Só para aumentarmos em número? O caminho é a nossa conversão ao Evangelho, a Cristo. É preciso testemunhar com a vida a relevância do Evangelho na minha experiência humana.


10) De que forma os espaços de oração e liturgia podem ser tornados mais acolhedores e inclusivos, refletindo a beleza da diversidade do Povo de Deus?

    A partir do momento que reconhecermos a ministerialidade de todo o Povo de Deus e, consequentemente que os espaços de oração e a liturgia, como espaço por excelência da oração da Igreja, não pertencem a mim ou a você, mas pertencem ao inteiro Povo de Deus, que se manifesta em ministérios ordenados e em ministérios leigos, seremos, com certeza, mais acolhedores e menos possessivos. 


11) Quais abordagens podem ser adotadas para assegurar que a missão evangelizadora da Igreja esteja firmemente enraizada na justiça social, no cuidado com a criação e no serviço aos marginalizados e vulneráveis?

    A dimensão social e ecológica da fé não é apenas uma abordagem. É uma dimensão essencial da fé. Negá-la ou omiti-la é mutilar a fé cristã. Não vive-la é viver parcialmente a fé cristã. Justiça social, cuidado com a criação e serviço aos marginalizados e vulneráveis são expressões palpáveis de que o Evangelho chegou ao centro vital de cada um de nós e está determinando nosso modo de vida, ao modo de Jesus Cristo.


12) Como a Igreja pode utilizar as tecnologias digitais e as mídias sociais de forma criativa e ética para promover o Evangelho e fomentar a comunhão comunitária?

    Sempre a partir da verdade e em abertura ao diálogo e à acolhida. Jamais em atitude de confronto e polarização. Mais importante do que o conteúdo que, em nome da Igreja, nós publicamos nas redes sociais, é a forma ou a postura como nos comportamos nas mídias digitais. Isso vale para toda a vida. Não apenas para a vida on-line.


13) De que maneira a experiência e sabedoria dos idosos na comunidade podem ser melhor reconhecidas e integradas na vida e na missão da Igreja?

    Certa vez, o Papa Francisco sugeriu que se deveria sempre se construir junto a uma creche um asilo e junto a um asilo, uma creche. Cabe a cada um de nós abrir-nos, com a caridade de Cristo, para ouvir as experiências daqueles que chegaram antes de nós, ainda que eles nos contem essa mesma coisa pela milésima vez. Como comunidade cristã, que vive da memória de Jesus de Nazaré, nós deveríamos ensinar, a partir da fé, às crianças e aos jovens a ouvir os mais velhos e a falar com eles.


14) Como a Igreja pode cultivar uma cultura de escuta e discernimento contínuos, garantindo que todos os membros da comunidade se sintam ouvidos e valorizados?

    Jamais negligenciando processos comunitários de escuta e tomada de decisão, mas colocando-os em prática, ainda que isso seja um desafio que comporte errar juntos.


15) De que forma a Igreja pode promover uma missão comum que seja verdadeiramente global, reconhecendo e valorizando as diferentes expressões culturais da fé ao redor do mundo?

    Olhemos para os nossos vitrais. A sua beleza está na diversidade das cores, todas elas empenhadas num único objetivo: transluzir, transpassar a luz do sol, dando-lhe o seu colorido. As diversas culturas são povoadas pelas sementes do Verbo. Deus está de alguma forma nas mais variadas culturas. É preciso dar-lhe a conhecer o Evangelho para que se reconheça nelas aquilo que é sinal da presença de Deus e se proponha a conversão cultural naquilo que contraria o projeto de Deus, por ser fruto do pecado. É preciso começar perto de nós. Quantas culturas – preta, sertaneja... – nós temos bem perto de nós, mas não deixamos que elas se manifestem na sua beleza. 


Entrevista cedida a Francine Levenhagen.



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