ENTREVISTA - Intenção do Papa - pelos que fogem do próprio País

 


A intenção do Santo Padre, o Papa, para este mês de junho é pelos que fogem do próprio país.

 

Rezemos para que os migrantes que fogem da guerra ou da fome, forçados a viagens cheias de perigo e violência, encontrem acolhimento e novas oportunidades de vida nos Países que os recebem.




O entrevistado desta semana é João Carlos Gomes Pereira, engenheiro elétrico, graduado em 1983, pela EFEI, atual Universidade Federal de Engenharia de Itajubá. 

Atualmente, vive em Houston, Texas, nos Estados Unidos, onde trabalha na indústria petroquímica.

Há 39 anos, dedica-se à indústria de exploração de petróleo. 

Em sua carreira profissional, trabalhou em 11 diferentes países, em 4 continentes, tendo ocupado posições em operações, recursos humanos, gerenciamento e marketing.

Filho dos saudosos Ademar e Isaura, e irmão da querida Dra. Elaine e do Prof. Luís, João Carlos nasceu em São Lourenço, em 1961, foi criado em Itajubá, mas adotou Itanhandu, terra de seus antepassados (Scarpa), como sua terra natal. 

João casou-se com Paola Levenhagen e, juntos, têm dois filhos: Julia (21 anos) e Breno (16 anos).

João é devoto fervoroso de São Francisco de Assis e de Madre Teresa, que são exemplos de como podemos copiar os passos de Jesus.


1) Quais são as principais causas que levam as pessoas a fugirem de seus países?

    Se a pergunta for realmente sobre "fugir", deve-se a ameaças à integridade pessoal ou da família. Por exemplo, quando há guerras. Se a pergunta for "emigrar", então, deve-se, principalmente, à procura de oportunidades que não são oferecidas no país de origem. Por exemplo, relacionadas à qualidade de vida, falta de segurança, possibilidades de emprego e/ou crescimento profissional.

 

2) Como os países de acolhimento podem preparar suas sociedades para receber migrantes e refugiados de maneira digna e eficaz?

    Na verdade, todos os países são originados de imigrantes que, historicamente, vieram de algum outro lugar. Os países têm que dar claras demonstrações de que os imigrantes são acolhidos. Por exemplo, que haja leis duras com respeito à discriminação contra imigrantes na seleção de empregos, no dia-a-dia, no convívio social. Ademais, o governo tem que dar exemplo e selecionar imigrantes para cargos públicos de alta visibilidade e apoio ao imigrante exatamente igual aos seus próprios cidadãos.


3) De que forma a comunidade internacional pode atuar para prevenir as crises que forçam as pessoas a se tornarem migrantes ou refugiados?

    A solução, em longo prazo, seria ajudar os países sabidos por sua grande quantidade de imigrantes, para que possam se desenvolver  e ter condições de gerar qualidade de vida adequada para seus cidadãos, de tal forma a não incentivar a imigração. O globalismo e o capitalismo sem controle fazem com que haja uma relação desbalanceada entre países ricos e os pobres. Os ricos se interessam cada vez mais que os pobres sejam provedores de commodities e fiquem estagnados no setor primário da economia, eternizando a pobreza, que lhes é conveniente.

 

4) Quais são os principais desafios enfrentados pelos migrantes durante sua jornada em busca de segurança e oportunidades?

    São muitos, mas penso que os principais são o idioma, a incompatibilidade cultural e o despreparo, ou seja, o imigrante "sonha" com uma vida melhor, mas, não é orientado sobre as dificuldades que vai enfrentar e como se preparar melhor para ter êxito.


5) Como podemos promover uma cultura de acolhimento e inclusão para migrantes e refugiados nas comunidades locais?

    Imigrantes são só um exemplo de irmãos necessitados e nem sempre são os mais necessitados. O acolhimento tem que considerar o ser humano como um "irmão" e, a partir daí, ajudar e dar suporte. Acredito que, nesse aspecto, a filosofia cristã seja fundamental e, portanto, as igrejas têm um papel fundamental para disseminar práticas e oportunidades de acolhimento.


6) Qual é o papel das organizações não governamentais e da sociedade civil no apoio aos migrantes e refugiados?

    Como todas as organizações, existem as genuinamente interessadas em ajudar e outras que usam a máscara de ser uma ONG para extorquir, e gerar lucro à custa do imigrante. Faz-se necessário um controle rígido e uma fiscalização adequada para separar o joio do trigo.

 

7) De que maneira as políticas públicas podem ser aprimoradas para garantir a proteção e a integração dos migrantes e refugiados?

    Apoiar o imigrante nos primeiros meses de sua chegada com alojamento e comida, usando a oportunidade para que ele tenha documentação de "residente" e acesso a treinamento do idioma.


8) Como os migrantes contribuem para as sociedades que os acolhem e qual é a importância de reconhecer essas contribuições?

    Todo imigrante é uma fonte potencial de novos conhecimentos e cultura. A diversidade na gastronomia, costumes, comportamentos e idéias enriqucem um país e as empresas em que os imigrantes trabalham. Sou testemunha disso ao ter sido imigrante por 40 dos últimos 45 anos de minha vida.


9) Quais são as consequências da migração forçada para as famílias, especialmente para crianças e jovens?

    Sem duvida, é um trauma. Mas, também, pode ser vista como uma oportunidade para um recomeço. Tudo vai depender do apoio que receberem ao chegar e como eles mesmos desejarem ver a situação.


10) Como a educação e o acesso a oportunidades de trabalho podem facilitar a integração dos migrantes nas novas comunidades?

    Fundamental! O trabalhador adquire autoestima e passa a ter rendimentos para ter uma vida digna. Penso que preparar-se para a imigração é crítico, para que o imigrante escolha o país que melhor se adeque as habilidades que ele possui.

 

11) De que maneira as narrativas e discursos sobre migrantes e refugiados nos meios de comunicação influenciam a percepção pública sobre essa questão?

    Na era digital e de influencers em que vivemos, a imprensa tem um papel importantíssimo na percepção pública. Não faz muito tempo, a Grã Bretanha estava numa onda de discriminação e racismo contra imigrantes e justamente um brasileiro salvou um cidadão local. A imprensa deu a cobertura apropriada a isso e facilitou muito a reverter essa percepção. O brasileiro recebeu vários prêmios e ajuda massiva da população local.


12) Como podemos combater a xenofobia e o racismo contra migrantes e refugiados?

    Sem duvida com boas leis e um sistema judicial que não permita impunidade. As escolas são formadoras de caráter das crianças e, também, deveriam incluir assuntos e matérias que abordem o tema, mostrando o lado positivo de uma boa imigração.

 

13) Qual é o impacto da separação familiar nos processos migratórios e como as políticas podem abordar essa questão sensível?

    Catastrófico. Parece-me ser preferível deportar toda uma família junta a deixar pais separados de filhos ou irmãos separados entre si. Os países de onde se originam a imigração deveriam fazer um trabalho de conscientização sobre o processo de imigração e como fazê-la de forma adequada, ressaltando os riscos de se utilizar "coiotes" ou outras formas ilegais de imigração que terminam causando este tipo de problema.

 

14) De quais formas as experiências de migrantes e refugiados podem enriquecer culturalmente as sociedades de acolhimento?

    Nas artes, na gastronomia, em novos costumes e tradições. A incorporação de novos traços culturais enriquece o ser humano e o faz mais susceptível ao valor da imigração e do imigrante.


15) Como as práticas de acolhimento e solidariedade podem ser incentivadas entre os cidadãos dos países de acolhimento?

    Formar líderes comunitários nos bairros onde há maior concentração de imigrantes, dar cobertura adequada da mídia ao tema imigrantes, trabalho das igrejas e lideranças religiosas e iniciativas tal qual faz a Holanda. Os próprios imigrantes que se adaptaram à sociedade local e receberam ajuda, são convocados para trabalhar em centros de apoio ao imigrante para atender aos seus compatriotas ou imigrantes de outros países. Esses voluntários se integram mais facilmente aos imigrantes porque se identificam com eles, falam sua língua e entendem, melhor do que ninguém, as dificuldades pelas quais estão passando.


Entrevista cedida a Francine Levenhagen 

 


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