Dia 03/07 - São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”
Anunciamos Jesus
São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”
A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para nossa fé.
Anualmente, no dia 3 de julho, a Igreja celebra a festa do apóstolo São Tomé. Sobre ele temos palavras memoráveis de São Gregório Magno (século VI): “A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram logo”.
Esse Papa explica sua observação a partir do seguinte raciocínio: enquanto Tomé foi reconduzido à fé porque pôde tocar nas chagas de Cristo, nós somos confirmados na fé a partir do testemunho que esse apóstolo nos deixou, ao proclamar: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28).
As primeiras palavras que os evangelistas reproduzem de Tomé são marcadas pela coragem: Marta e Maria haviam pedido a Jesus que visitasse Lázaro, que estava enfermo. Mas, Jesus corria o risco de ser apedrejado se voltasse à Judeia, pois seus inimigos o haviam ameaçado. Mesmo assim, contra a opinião dos apóstolos, Jesus decidiu voltar. Tomé, então, observou: “Vamos também nós e morramos com ele!”
Outra intervenção de Tomé foi por ocasião da Última Ceia. Jesus anunciou aos Doze: “Para onde eu vou, vocês sabem e sabem também o caminho”. Os apóstolos ficaram emocionados e se calaram. Mas, Tomé não se conteve e lhe disse: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, e como poderemos conhecer o caminho?” Foi uma oportunidade para Jesus dizer quem Ele era: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Por ocasião da primeira aparição de Jesus Ressuscitado aos apóstolos, Tomé não estava presente. Quando retornou, seus colegas lhe falaram da alegria que tiveram ao reencontrar o Mestre. Tomé, porém, lhes respondeu que só acreditaria no que eles lhe diziam se ele mesmo pudesse colocar o dedo nas marcas dos pregos e a mão na chaga que Jesus tinha no lado de Seu peito. Oito dias depois, Jesus voltou a lhes aparecer, pediu que Tomé tocasse em Suas chagas e acrescentou: “Não sejas incrédulo, mas crê!” Em resposta, o apóstolo Tomé proclamou a divindade de Jesus e O adorou: “Meu Senhor e meu Deus!”
Ninguém, até aquele momento, havia chamado Jesus de “Deus”.
No dia da Páscoa, ao aparecer aos apóstolos, Jesus já os havia mostrado “as mãos e o lado”. Agora, graças a Tomé, havia uma confirmação: o Senhor levou consigo para a eternidade as Suas chagas. Ele é um Deus ferido; foi ferido por Seu amor para conosco. Suas chagas são para nós um sinal de que Ele nos compreende e faz Suas as nossas feridas e sofrimentos. Mas, são também um convite para que nós toquemos nas feridas de nossos contemporâneos. Ao nosso lado há muitos homens e mulheres que se sentem abandonados, incompreendidos e, mesmo, ignorados. Através de nós, Jesus quer manifestar Sua misericórdia para com esses irmãozinhos; quer lhes assegurar que não estão sozinhos, pois há alguém que os acompanhe e lhes estende as mãos, para dar um novo sentido às suas vidas.
“Meu Senhor e meu Deus!” é uma aclamação e, ao mesmo tempo, uma jaculatória – isto é, uma oração curta, que pode ser feita e repetida por nós a qualquer hora e em qualquer lugar.
De um lado, essa prece proclama nosso desejo de Lhe obedecer (“Meu Senhor”); de outro, é um reconhecimento da divindade do Senhor (“Meu Deus”).
Além disso, dado o contexto em que ela nasceu no coração de Tomé, é um hino à misericórdia divina. As manifestações dessa misericórdia de Deus se multiplicam diariamente em nossa vida. Infelizmente, percebemos mais facilmente os problemas que nos envolvem. É preciso estar atento para percebermos quanto Deus é bom. Sim, Ele nos ama, nos acompanha, cuida de nós e nos ajuda em nossas pequenas e grandes dificuldades. Jesus cumpre o que prometeu por ocasião de sua despedida: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos”.
Diante disso, entende-se uma outra observação de São Gregório Magno sobre Tomé: “A divindade de Jesus não podia ser vista por um mortal. Esse apóstolo, contudo, viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé em Sua divindade. Tomé viu um homem e proclamou que Ele era Deus, a quem não podia ver”.
Que esse apóstolo nos incentive a nos jogarmos nos braços daquele que se apresenta a nós como “caminho, verdade e vida”, e que espera de nosso coração uma prece que pode e deve ser repetida a toda hora: “Meu Senhor e meu Deus".
Dom Murilo S. Krieger, Arcebispo Emérito de São Salvador da Bahia
Revista Brasil Cristão
Ano 27 - nº 312 - Julho 2023
Imagem: Incredulità di San Tommaso, Caravaggio (1601 - 1602)

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